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segunda-feira, outubro 02, 2017

As Inteligentes Camadas de Fullmetal Alchemist Brotherhood


FULLMETAL ALCHEMIST BROTHERHOOD




Gênero: Drama, Ação, Aventura, Shounen

Autora: Hiromu Arakawa


Já aviso, eu ainda não assisti ao Fullmetal Alchemist Clássico. Sempre ouvi falar infinitamente bem de FMA, mas a quantidade de episódios e o fato de terem filmes, ovas e um remake me fazia não ter ideia de por onde começar. A trama, que parecia se centrar em lutas, ação e aventura, também já não é o estilo que mais me salta os olhos. 

Porém, ao ouvir repetidos elogios de críticos e leigos apreciadores de animes, fui atrás. A indicação era para iniciar com Fullmetal Alchemist Botherhood por ser mais fiel ao mangá (o primeiro anime destoa do material original e praticamente é um filler, uma história paralela, embora tenha seu enorme grupo de fãs). 




Vamos a Sinopse:

"Nada pode ser obtido sem sacrifício. Para se obter algo é preciso oferecer algo em troca de igual valor. Esse é o princípio básico da alquimia, a Lei da Troca Equivalente". (Elric, Alphonse)

Em um mundo onde a Alquimia existe e é amplamente utilizada por algumas pessoas, os irmãos Edward e Alphonse Elric, empolgados com as próprias habilidades, resolvem desafiar a Lei da Alquimia, que proíbe a transmutação humana, para trazer de volta à vida a mãe, recentemente morta por uma doença. Contudo, por conta da Lei da Troca Equivalente, descrita na citação acima, Edward perde uma das pernas e Alphonse perde o próprio corpo. Em um ato desesperado, Edward consegue selar a alma de Alphonse  numa armadura, mas como troca perde também um dos seus braços.



Após o ato pecaminoso, Edward já com próteses para substituir o braço e a perna, decide, junto a Alphonse, partir em busca de algo que possa resgatar seus corpos, como a lendária e famosa Pedra Filosofal. Para ajudar a investigar a existência da Pedra Filosofal, Edward entra no time de Alquimistas do Governo, por conta de seu talento acima da média, o que lhe confere a alcunha de Alquimista do Aço, o mais jovem alquimista federal. O que de início é uma jornada para alcançar seus objetivos pessoais, desenrola-se em um enredo repleto de complôs, um viés político, antagonistas, vilões e aliados, com outros personagens aderindo à trama, como o Coronel Roy Mustang, Winry, a amiga de infância dos irmãos, a mestre Izumi Curtis, o Príncipe Ling Yao, entre outros, além de dilemas a respeito da conquista ao poder em voga.





DE TÉDIO A VÍCIO

Demorou até eu me convencer de que assistiria os 64 episódios. Se não fosse o alarde entorno de FMA, eu teria desistido. Mas ainda bem que eu continuei..

Fullmetal Alchemist, no primeiros episódio, dá uma trama interessante que te incita vontade de acompanhar. A cena dos irmãos pequenos perdendo corpo e membros é emocionante. Depois disso, porém, eu fiquei um pouco desanimada para acompanhar. O trabalho dos meninos na Cidade Central não me abrilhantava os olhos. Apesar disso, persisti. 

Fullmetal é bastante cômico e cheio de ação. A comédia é um dos fortes no começo, e para alguns pode soar infantilizado (confesso que me diverti). Assemelha-se em parte aos tempos engraçados de Dragon Ball, ou a Narutinho, ou outros shounen, sem as piadas com garotas peladas ou velhos tarados. Entretanto, quando a gente vai percebendo onde a trama quer chegar, percebe-se que é tudo muito mais profundo e bem planejado...




Os personagens vão te conquistando aos poucos: o explosivo Edward (e seu complexo de altura) e o doce Alphonse, a relação de lealdade e amor dos irmãos é uma delícia de se ver; a carinhosa e explosiva Winry, o monstruoso e afetuoso Armstrong, o gentil e desajeitado Hughes, o sério e habilidoso, mas por vezes sem noção Coronel Roy Mustang, o ganancioso e excêntrico Greed, o perspicaz Ling Yao, são alguns dos personagens que nos cativam, dentre inúmeros que dão as caras. 

Estranhos e poderosos seres malignos como a sedutora Lust, o tenebroso Gluttony, o arrogante Envy, capaz de mudar de forma, pareciam, no início, meros vilões, daqueles típicos. A aparição do misterioso ishvaliano Scar,  que quer se vingar pela dizimação de seu povo, objetivando assassinar os alquimistas que ele acredita estarem pecando e brincando de "Deus", reacendeu novas discussões e também a minha chama de interesse, cruzando-se com a vilania já estabelecida.



Questionar os ciclos de ódio, vingança e guerra, preconceito e intolerância entre etnias (representados pelos Ishvalianos, vilanizados, mas vítimas), a supremacia do poderio, militarismo e suas obrigações (a exaltação cega no Führer), a busca desenfreada pela satisfação pessoal, a arrogância que pode vir de qualquer ser humano (Mustang, Ed), a moral no uso da alquimia (transmutação humana, surgimento de quimeras), as consequências desoladoras de atos dúbios (irmãos Elric, Mustang e Riza, Scar e sua vingança), a aceitação da condição humana e da efemeridade da vida (a perda de Trisha, a busca pela eternidade através da Pedra Filosofal).. tudo isso são camadas dramáticas e existenciais presentes indireta ou diretamente. A autora se usa de um mundo fictício para falar de temas humanos!

Muitos amantes do FMA clássico disseram que a versão Brotherhood é mais infantil. Que a primeira é pesada e com um final mais triste e por isso mais impactante. Eu acredito que Brotherhood, porém, seja densa ao seu estilo, e faz o que trabalhos aclamados da Dreamworks conseguem com maestria: trazer camadas à história, possibilitando que ela seja apreciada por uma criança, por um adolescente ou por um adulto. Uma criança será capaz de inferir uma parte das camadas, dentro de sua visão de mundo poética e sensorial. Ela vai captar as dores da perda e a amizade e perseverança, presentes de forma clara do início ao fim, divertir-se com os momentos cômicos, apreciar as cores fortes e os efeitos nas lutas.

Aqueles com mais maturidade conseguirão, entretanto, absorver os dilemas existenciais, a responsabilidade com as atitudes, e todo o contexto de crítica à guerra e ambição humana.






O UNIVERSO E A ALQUIMIA


Achei o universo bolado pela Arakawa um dos mais plausíveis e bem amarrados. O país onde a história se passa, Amestris, assemelha-se à Europa da Revolução Industrial, possui algumas etnias, e a técnica de Alquimia ser parte do dia a dia sócio-político do local é algo apresentado de forma firme e crível. A autora parece ter estudado à fundo a Alquimia e seus princípios e Leis, a relação com Química, o que, junto à magia fantástica, torna-se interessante e verossímil em sua própria lógica. Também transpõe as questões de conflitos religiosos e territoriais com a luta da população contra os Ishvalianos, etnias de um mesmo país. Os outros países (Xerxes, Xing), lendas e acontecimentos anteriores acrescentam riqueza.



PARTICIPAÇÃO FEMININA: OUTRO PONTO FAVORÁVEL



Fullmetal Alchemist dá uma aula de como utilizar personagens femininas. Os protagonistas são garotos (o público-alvo de Shounen são garotos dessa faixa-etária, nada mais natural), mas desde o início as mulheres participam ativa e efetivamente. Elas não são sexualizadas nem servem de adorno (mesmo a Homúnculos que representa a luxúria, Lust, é ativa, e não objeto de alguém). Elas são diversas e possuem várias motivações e personalidades. Femininas ou não, espertas, ligadas a beleza, alquimistas, fodásticas, comuns, inteligentes, com força interior ou física, boas ou más. Elas não estão lá apenas como enfeite ou como muleta de personagem masculino. É uma pena ter que comemorar algo que deveria ser o natural.. 


TRILHA SONORA

Não sou muito de falar dos efeitos ou design, até porque em Fullmetal não tem nada de espetacular, contudo, em relação a trilha sonora, é um trunfo! As músicas que compõem as cenas são tocantes. A "Main Theme" que é utilizada na Transmutação Humana dos irmãos Elric é uma das minhas favoritas, um misto de ironia e tragédia. A Trisha's Lubally é uma das mais tristes e bonitas dos animes. A primeira abertura empolga e já se tornou clássica. Existem várias outras canções interessantes, ora pontuando as sensações, ora contrastando com o acontecimento. 





(essa segunda é só se você quiser chorar)




SOBRE O FINAL  (PODE CONTER SPOILERS DO ENREDO)


Achei o final, em que Edward sacrifica seu poder de Alquimia para trazer de volta o corpo do irmão, extremamente impactante e certeiro. Muitos acharam que foi pouco: que o final dramático do FMA clássico, em que eles se separam, seria uma troca equivalente melhor, porém, eu estou com a autora e criadora da série. As habilidades extraordinárias de Edward foram responsáveis pela impertinência que resultou nas limitações dos meninos. Porém, eles também eram CRIANÇAS, vítimas das circunstâncias. Aparentemente abandonados pelo pai, sozinhos, sem a pessoa mais importante, que era a mãe. Eram crianças de coração enorme e muita bondade, um vínculo afetuoso e mútuo entre si. Eles mereceram o final feliz que tiveram. É triste você pensar no Edward viver para sempre sem seu talento mais precioso, uma genialidade que o destacava dos demais. É levemente agridoce.



(FIM DOS SPOILERS)




CONCLUSÃO




Fullmetal Alchemist Brotherhood é um anime que me surpreendeu positivamente, embora eu já tivesse iniciado com altas expectativas. Eu me diverti, chorei, ri, fiquei viciada, desopilei da vida, umas poucas vezes agoniada ou entediada, mas muito tocada. FMA deixou um gosto que só ótimas obras deixam: concluída, mas com o eco da história ressoando na minha própria vida.





Por Bruh

sexta-feira, julho 21, 2017

Toradora e o Estranho caso do Anime que Parei de Ver Antes do Fim



Gênero: Shoujo, Slife of Life, Comédia, Romance, Seinen, Shounen, Vida Escolar

 Toradora foi, primeiramente, uma light novel escrita por Yuyuko Takemiya, posteriormente se tornou um mangá e depois um anime. O jovem Takasu Ryuuji, estudante do segundo ano do ensino médio, possui um aspecto de "delinquente" assim como seu falecido pai, por isso é temido pela maioria das pessoas com quem convive e que não o conhecem à fundo. Contudo, por de trás da face ameaçadora, Ryuuji é na verdade um garoto gentil, estudioso e maníaco por limpeza, que exerce as funções domésticas com maestria.

A história dá início com o novo ano do colégio, onde um desanimado Ryuuji precisa, mais uma vez, quebrar o estigma de "cara do mau", mesmo que já tenha um amigo de longa data, o popular e excêntrico Yusako Kitamara. A paixonite secreta pela entusiasmada e pitoresca Kushieda Mironi, também não lhe parece ser lá muito esperançosa. Sua vida muda quando ele esbarra na colega de turma, Taiga Aisaka, conhecida por todos como "tigresa portátil" por conta de tamanho miúdo e ferocidade.

Alguns eventos depois, Taiga coloca na bolsa de Ryuuji, por engano, uma declaração de amor para Kitamura. Ao descobrir o erro, invade a casa de Ryuuji para pegar a carta de volta, e após um conflito com o rapaz, ele promete não revelar a ninguém seu segredo. O problema é que ele acaba deixando escapar seu amor platônico em relação a Minori, que, ironicamente, é a melhor (e talvez única) amiga de Taiga..




Daí então os dois desenvolvem uma forte amizade e cumplicidade: Ryuuji resolve ajudar Taiga a conquistar Kitamura (e ela subentende que ele fará tudo para ela, como um cão), eles passam a jantar juntos todos os dias, já que Taiga vive só em um apartamento ao lado da casa de Ryuuji, Ryuuji se torna protetor de Taiga, limpando sua casa, cozinhando para ela e zelando por ela (que é praticamente ignorada pelos pais).

É aquela típica história de comédia, romance, vida escolar, slice of life, uns dramas aqui e acolá, acompanhando a vida das personagens, conflitos, amizades... e você já sabe e deve esperar que uma hora Taiga e Ryuuji ficarão juntos. Se você curte esse estilo de história, a chance de gostar é grande e eu recomendo sim, mesmo que abaixo eu vá apresentar uma crítica negativa por motivos bem pessoais.


Vamos para a crítica com SPOILERS!


Vou falar uma coisa: não me recordo de um anime curto (desses sem fillers e enrolação) que eu tenha começado a assistir, me cativado de alguma maneira, chegado perto do fim e simplesmente tenha parado de ver, insatisfeita e agoniada com os rumos da história (Ookami Shoujo To Kuro Ouji abandonei muito antes). Pois é... foi o que ocorreu com o famigerado e amado "Toradora". Senti muito carinho e raiva do anime, e não poderia passar sem resenhá-lo. Ele é muito recomendado em blogs sobre mangás shoujos, mas segundo minha pesquisa seu público-alvo era shounen (ou seinen).


Tsundere nível Master


Problema Central para Mim: Relação com Agressão e Desigualdade

Dinâmicas de dupla/casal onde um exerce poder sobre o outro e/ou o humilha, domina, são uma constante nos mangás, animes, na literatura ocidental, no cinema americano. Sei que é um recurso cômico, porém, pessoalmente, quando se usa de maneira exagerada, me incomoda profundamente. Aconteceu em Ookami Soujo To Kuro Ouji, onde o mocinho sádico humilhava e explorava a mocinha boba e apaixonada. Tem em outro grau em "Zero Tsukaima", em "Itazura na Kiss"... não importa se a submissão vem de um rapaz ou de uma moça. Não me interessa se a violência e a grosseria, o sadismo, vem de um tsundere homem ou de uma mulher. Esse tesão por ver uma pessoa batendo, ofendendo e/ou esculachando a outra que faz tudo por ela ou a trata com gentileza, ( com a desculpa de que a personagem é legal, mas possui problemas internos) não me cativa. Eu fico é muito chateada.

Então, dizendo isso, vamos falar da parte boa..


Ryuuji: Cara de delinquinte, coração de anjo


Em Toradora, eu até me diverti e vi um bocado de episódios. Os personagens, mesmo os secundários, são interessantes e nos conquistam. Ryuuji Takasu, o protagonista, não é o cara bonito típico de anime (até por não ser shoujo com aqueles meninos idealizados), mas sua personalidade é crível. Ele é organizado, atencioso, maníaco por limpeza e muito bom nos afazeres domésticos, sem ser aquele cara perfeito que em tudo, ou excessivamente bobo. Confesso que ele me agradou bastante e me manteve no anime.

Minori, Taiga e Ami: Meninas de Toradora


Ami também se mostrou interessante, esperta. Uma personagem bacana que fazia a trama girar. E Kitamura fugia do clichê do galã do colégio, e seu comportamento louco era divertido de acompanha.

Minori, a paixão de Ryuuiji, no início, eu resisti um pouco para gostar. Achei que ela seria o típico objeto de desejo do protagonista, aquela menina perfeitinha que todos amam, porém me enganei. A garota é completamente pirada, e confesso que seu jeito meio estranho - não tão apreciado assim pelos outros no colégio, mas sem exagero à ponto dela ser excluída - começou a me aproximar da menina, embora, às vezes fosse meio irritante. Sua devoção e amizade por Taiga, por vezes escondendo seus sentimentos e problemas pessoais, também me fizeram começar a torcer por ela, querer saber mais a seu respeito, suas aflições, o entusiasmo exagerado para esconder uma melancolia, o motivo de trabalhar tanto, ainda mais ao notar seu amor por Ryuuji.

Quanto à Taiga..




Taiga, Taiga, Taiga: eu sempre ouvi maravilhas sobre a personagem, que é uma das mais amadas do mundo dos mangás e animes, e eu jurava que seria fã da menina, entretanto, não foi o que ocorreu. Achei a garota chata ao cubo! Mimada, mal criada, violenta em excesso. Tinha seus problemas? Tinha, mas acho um saco isso ser justificativa para tratar daquela maneira pessoas boas como Takasu, de forma extremamente rude e agressiva. Isso porque eu gosto de muitas personagens tsunderes, mas até certo ponto... a menina batia do garoto do nada. Ela só começa a exibir um comportamento mais normal (mantendo a força, sem ser apelativamente violenta) na metade para o fim do anime, e eu até perseverei, querendo gostar da personagem, querendo torcer para ela ficar com Ryuuji, mas não deu..

Eu torcia logo pra vê-los demonstrando aquela atração apesar da amizade (como ocorre em "Lovely Complex" muito antes deles se perceberem apaixonados), porém pouco aconteceu. Ryuuji mais tratava Taiga como filha (salvo a cena da piscina, onde ele colocou seio falso nela) e eu me acostumei com os dois dessa forma. Mais para o fim do anime, Taiga se percebe afim de Ryuuji, e toda aquela amizade cheia de cumplicidade, começou a exalar tensão sexual. Nesse desfecho previsível e desinteressante, me peguei torcendo contra o casal principal,queria que um cara legal como Ryuuji fosse bem tratado (assim como torci bem contra Irie ficar com Kotoko em "Itazura na Kiss", que nem entendo como consegui assistir inteiro). A cena do Natal foi o ápice: não senti felicidade em ver uma personagem secundária gente boa abdicando de quem ama pela amiga, que parecia ser a única com problemas importantes.

Enfim, essa é minha humilde opinião, minha impressão. Sei que é um anime amado e idolatrado por muitos, mas possivelmente a dinâmica não me pegou e o negócio desandou. Não sei se tem outra pessoa que compactua com isso (pelo visto quase ninguém, e eu entendo, claro). Mesmo assim, eu recomendo "Toradora" sei que pode agradar a muitos! Sei que tem muitas pessoas que assistiram e se apaixonaram, até porque reconheço momentos muito bonitos, até mesmo de Taiga com Ryuuji. Personagens legais, história fofa, design bonito, trilha no ponto... espero que os fãs me perdoem.


Apesar de tudo, ficam uma graça juntos




quinta-feira, março 30, 2017

Um ponto de vista feminino


Desde criança meus olhos brilhavam um pouco mais para os desenhos japoneses do que para os outros tipos de desenhos. Cresci assistindo muitos deles, e na puberdade, comecei a entender o que era anime (desenho japonês), mangá (quadrinho japonês), o direcionamento de público, e etc. De início via os de briga, que eram os mais comuns na TV brasileira, e apesar de serem protagonizados por homens, tinham histórias mais emocionantes do que os outros desenhos. Vez ou outra uma personagem feminina dava às caras como guerreira (10 x 0 para Disney e suas princesas), isso quando não era “Sailor Moon”, Sakura Card Captor ou algo assim… animes cheios de representações femininas. Eu me senti contemplada!


Sailor Moon e as Sailors: Um marco no protagonismo feminino

Certamente na adolescência foi a época na qual mais consumi animes. De luta, de magia, para meninas, para crianças, mais adultos, com mechas, suspense… ufa. No entanto, os afazeres da vida, a pouca facilidade em baixar e armazenar no computador, distanciaram-me um pouco desse universo. Anos depois, tornou-se muito fácil entrar em contato com as produções recentes ou mesmo aquelas clássicas, e as toneladas de remakes e continuações dos animes célebres me fizeram voltar com força total a assistir animes! Só que meu olhar mudou bastante...

É impossível dissociar minha visão de mundo e questionamentos ao me deparar com os enredos das histórias que assisto. Revisitar alguns animes é uma experiência louca, cheia de nostalgia, por vezes desapontamento ou até alívio. Eu tento sempre entender que o Japão é um país culturalmente diferente, que por vezes a história é mais antiga e ainda está imbuído de convenções tradicionais.. Entretanto, felizmente, existem exemplos bons em meio aos ruins e daí posso tecer uma crítica comparativa.

Samurai X ou Rurouni Kenshin: boas representações femininas, mas sempre em segundo plano

Que as produções voltadas para os garotos era machista, isso eu estava careca de saber. Com protagonismo masculino, mulheres objetificadas ou usadas como adorno, personagens femininas de relevância em pouca quantidade…. Mesmo em alguns dos animes que gosto, eu já notava isso (alguns isso é bem perceptível, outros nem tanto). Agora, algo que eu não tinha tanta ideia era no quão machista os mangás voltados ao público feminino eram! Para mim, shoujo era meio que certeza de ver representação feminina, tanto na autoria quanto nas personagens, a exemplo de Sailor Moon, com sua quantidade enorme de meninas de vários tipos, algumas que gostam de meninas, outras que se reconhecem como garoto, que querem um amor para a vida toda ou apenas trabalhar (ou os dois). 

Ao assistir novos animes adaptados de mangás shoujos (direcionados a meninas), ficou evidente o quão certos valores japoneses estão arraigados e perpetuados. Relacionamentos abusivos, romantização de agressão, pouco enfoque em como a violência é nociva, superestimação do relacionamento romântico, adequação à padrões tanto de beleza quanto comportamentais para se alcançar a felicidade… tudo isso é muito presente em shoujos – não vamos ignorar que em “Crepúsculos”, novelas brasileiras e outros enredos ocidentais isso também existe - , colocado com naturalidade e como mote do enredo.


Irie e Kotoko: desprezo, desprezo e migalhas de amor


Não sou, porém, aquela pessoa que deixa de assistir alguma produção com história interessante por conta desse tipo de problema. Prefiro continuar a assistir, com meu senso crítico. Tento descobrir o que posso tirar proveito dali. Uma das minhas reflexões está em torno do "macho alfa", o galã perfeito, o cara maravilhoso, poderoso, popular, lindo, inteligente, com uma sedução ligeiramente possessiva e violenta (Itazura na Kiss, Cinquenta Tons de Cinza, entre outros). Esse tipo é muito comum nos mocinhos de shoujo. É naturalizada essa superioridade do galã em relação a mocinha comum, sujeita a humilhações e dependência emocional resolvidas com beijos ou "eu te amo".  Um péssimo exemplo para uma menina que ainda está aprendendo a se aceitar.

Kenshin Humira ensina a ser um bom marido, sem ser perfeito

O irônico é que em alguns shounen lembro de personagens que seriam muito melhores maridos do que os de shoujo. A exemplo de Kenshin Himura de Rurouni Kenshin. Ele foi assassino à mando do governo, lutava por uma causa, mas sabia que aquilo era errado. Arrependeu-se, tornou-se uma pessoa pacata, madura, cozinha, lava, faz todos os afazeres domésticos, respeita o espaço da Kaoru, não é um cara que se usa do seu poder ou acredita que sua amada é sua posse. Não é perfeito, possui vários defeitos, porém mesmo no alto de suas habilidades extraordinárias, é mais realista que Usui de Kaichou Wa Maid-Sama.

Até mesmo o Inuyasha: imaturo, egoísta, amargo por conta de sua condição de meio-demônio (renegado por demônios e humanos), vivendo em uma Era antiga, com sua dose de machismo, e no eterno dilema romântico, por mais ciúmes que sentisse, por mais dúvidas que tivesse, esperava ver Kagome feliz, mesmo que não fosse perto dele e nunca forçou uma situação com a garota. Kagome é ciente dos defeitos de Inuyasha e os enfrenta de igual para igual. Ela não idealiza o ciúme ou os sentimentos confusos de Inuyasha, mas reconhece que ele a ama, a respeita, e preza por ela e por seus amigos. 

a imaturidade de Inuyasha 

Já nos shoujos são situações forçadas onde o garoto (na maioria das vezes popular) parece fazer um favor ao se relacionar com a garota (muitas vezes alguém comum ou até impopular), de maneira que “beijos roubados”, humilhações e abusos se tornam recurso para desenvolver e apimentar o romantismo. Itazura na Kiss é o exemplo mais recente em que vi algo assim, e é agoniante de tantos exemplos. Ao Haru Ride também tem algumas cenas que me deixaram de cabelo em pé, como quando mocinho questiona o motivo da mocinha se deixar estar à sós com ele – um homem – , pois isso pode culminar em algo ruim para ela (ser molestada, abusada). Não posso nem falar da experiência horrível de espiar "Diabolik Lovers" Quase traumatizante..

Enfim, aguardem nas minhas resenhas também abordar esse viés, sem deixar de apontar a parte positiva, claro! Sou mulher e quando criança, adolescente, queria muito ter visto mais personagens que me contemplassem e relacionamentos menos idealizados. Alguns animes advindos de mangás shoujos como “Lovely Complex”, “Peach Girl” e “Kimi ni Todoke”, são positivos nesse sentido e isso merece ser destacado! E óbvio, também falarei do tema quando se tratar de shounen, seinen, jounen, entre outros...

Obs: Se você é homem ou mulher, feminista ou não, vem trocar umas ideias aqui. Com respeito, todo mundo é bem vindo!



Postado por Bruh