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sexta-feira, julho 28, 2017

Honey & Clover: A Melancolia e a Delícia da Vida

Obs: Cami já falou sobre Honey & Clover aqui: http://assistidorasdeanime.blogspot.com.br/2011/04/honey-and-clover.html

Assim como ela diz no post dela, é comum você começar a assistir e não achar tão interessante, e só depois rever e começar a gostar. Foi assim comigo. Nosso olhar sobre o anime é similar, porém, resolvi refletir um pouquinho e reforçar a recomendação.. persista, você não vai se arrepender!!!





Hachimitsu no Clover



Gênero: Josei, Seinen, Shoujo, Romance, Drama, Comédia, Slife of Life, Vida Escolar, Faculdade.


Quando tinha 17 anos e estava iniciando a faculdade, minha amiga Camila me indicou um anime chamado "Honey & Clover" (de Chica Umino), sobre um grupo de amigos universitários de cursos na área de artes (assim como a gente naquela época). A premissa simples não me empolgou tanto, eu vinha da adolescência encharcada de histórias fantásticas e irreverentes, fossem em filmes, livros ou quadrinhos, e aquele cotidiano relacional não me fisgou nos três episódios que vi. Até achei interessante, mas faltava mais emoção fantasiosa, acho.

Muitos anos depois (muitos mesmos) eu voltei a assistir animes e a indicação de Honey & Clover parecia soar mais interessante. Enrolei, exatamente por isso: tinha certeza que com a experiência de agora eu seria fisgada pela história e foi o que ocorreu quando finalmente resolvi assistir.


Mayama, Morita e Takemo



A história mostra cinco anos de convivência de um grupo de amigos que estudam na universidade Hamabi, em Tóquio, em cursos de artes: o doce e cuidadoso Yuuta Takemoto (que inicia narrando a história), o atencioso e centrado Takumi Mayama (prestes a se formar) e o caótico Shinobu Morita, que está na faculdade há anos e parece que não vai se formar tão cedo (apesar de ser um artista brilhante). Eles dividem a moradia em um complexo habitacional com outras pessoas, como Hanamoto Shuuji, professor da faculdade.

Shuuji e Hagu


Quando o professor Shuuji apresenta a eles a nova moradora do local e estudante da faculdade, sua jovem prima e protegida, Hagumi Hanamoto, o enredo começa a se desenrolar. Com aparência delicada, pequena e frágil - ela parece uma criança, embora já tenha 18 anos, o que é estranho no início, mas incomoda menos a medida em que ela amadurece - , Hagu é uma promessa na área artística com sua genialidade para pintura. Takemoto e Morita acabam se apaixonando pela menina à primeira vista.


Ayumi


Hagu logo se torna amiga de Ayumi Yamada, uma bela estudante de cerâmica, que se junta ao grupo de amigos. A moça é extremamente popular entre os garotos, mas só tem olhos para Mayama, que por sua vez, ama fervorosamente sua chefe no trabalho, Rika Harada, ex colega de Shuuji. Existem ainda outros personagens que aparecem como Kaoru Morita (irmão mais velho de Shinobu), Takumi Nomiya (galanteador, que trabalha com Mayama e se interessa por Ayumi), entre outros.





Durante cinco anos, triângulos amorosos, amores não correspondidos, dilemas, dúvidas, aflições acerca do futuro e da profissão, medos e anseios, são apresentados de maneira divertida, leve, mas por vezes bastante dramática (não se engane pelo traço fofo). Takemoto, o principal narrador (a narração se alterna com outros personagens, devo salientar), reprime todo o tempo sua angústia de não se achar suficientemente bom em um meio onde existem gênios como Hagu ou Morita. Seu questionamento sobre sua função na vida, sobre o que ainda quer realizar, os empecilhos financeiros e realistas da vida adulta, "até onde ele pode ir sem voltar" usando sua bicicleta (a grande questão desde o início, o qual se pergunta ao pedalar a bicicleta que trouxe de sua cidade natal).





Ao mesmo tempo, os excessivamente talentosos como Hagu e Morita, convivem com a pressão de corresponderem as expectativas dos outros por possuírem um dom almejado por muitos, quando eles tem suas próprias aspirações e necessidades pessoais ligadas a arte.. Enquanto Mayama e Ayumi lidam bem com suas potencialidades e fragilidades profissionais e a entrada na vida adulta, mas por outro lado, perduram arduamente em amadurecer na questão emocional e afetiva por terem amores não correspondidos.





Nos triângulos amorosos, não existe conflitos ou rivalidade declarada, os sentimentos são resguardados em prol da amizade que se estabelece entre todos ou por conta da insegurança ou falta de compreensão do afeto. Ayumi, mesmo rejeitada por Mayama, continua próxima de todos, nutrindo esperanças de um dia o rapaz lhe ver de outra maneira, embora ele espere que o mesmo aconteça com Rika, que o rejeita por motivos ligados a culpa pela perda do marido. Já Takemoto esconde seu amor platônico e se torna amigo de Hagu, enquanto Morita se relaciona com ela de formas estranhas, como lhe fotografando e criando apelidos, o que espanta a garota, mas também lhe intriga.

Morita

Os personagens e as situações podem parecer, por vezes, meio caricatas ou irreais, como os sumiços de Morita (que alterna total irreverência com lampejos de sensibilidade e seriedade), por exemplo, porém, no balanço geral, é tudo feito de forma tão genuína, com personagens tão ricos e profundos que é impossível não se identificar com algum deles (ou todos). É muito comum a pessoa ter tentado assistir o anime quando adolescente, e não ter gostado, e anos depois, mais amadurecida, ter ficado apaixonada (como eu). No início as situações pouco extraordinárias podem soar tediosas, contudo, não desista.. quando você menos notar, vai se sentir íntimo de cada um dos personagens, como se fossem seu grupo de amigos.





É notório como é importante essa empatia, inclusive nas personagens é possível perceber o amadurecimento sem se perder a essência, fiquei impressionada com a transformação natural de Takemoto e até de Hagu. O humor e a leveza são muito bem explorados, é um anime gostoso de se assistir após um dia turbulento, entretanto existe algum drama e alguma tristeza, dependendo do ponto de vista muita tristeza, mas está longe de ser um dramalhão que apela para a dor, pelo contrário, o auto-conhecimento é o gancho que nos faz refletir sobre as situações da vida, as passagens, a importância de passar por certas situações, por certos problemas e frustrações. 



Concluindo... você não verá uma turma com superpoderosos vivendo grandes aventuras ou uma carreira promissora e genial (por mais que existam gênios no anime, isso não é colocado como recurso para protagonismo, como em outros) o que acaba sendo o charme de Honey & Clover. Se muitos animes são protagonizados por pessoas que realizam grandes feitos (seja por talentos natos ou adquiridos), heróis e heroínas com poderes, aventuras fantasiosas, romances ou habilidades extraordinárias, amores que acontecem se você insistir, e nos dão a sensação de que nossa vida real de expectador é vazia e monótona, Honey & Clover traz exatamente o oposto: a sensação de que vida é isso mesmo, a busca incessante por sentido, que somos únicos e parecidos em nossos dilemas, e que ela é bela na simplicidade dos momentos que partilhamos com quem conhecemos ao longo dela, mesmo que seja por um período curto de tempo.



Outra particularidade, talvez a mais importante: a maioria das histórias enaltecem aqueles que persistem atrás de um amor impossível ou um sonho distante e atingem, mas falam muito pouco sobre como lidar com a vida quando as coisas não saem do jeito que foi pensado, aquela pessoa que não te ama do mesmo jeito, aquele objetivo que só lhe machuca quando você corre atrás. É necessário e saudável se desapegar e seguir em frente, e isso Honey & Clover nos mostra com maestria! Isso se chama aprender a lidar com frustração e seguir em frente!




Ah, outro ponto: trilha sonora muito acima da média. Além da abertura inusitada e do fechamento lindo, as músicas de fundo são muito boas, compõem com delicadeza a melancolia de algumas cenas, ou uma batida mais bossa nova dão o humor para outra cena.




Resumindo: recomendo para caramba. Se você nunca viu um anime, insista. Se você viu os primeiros episódios e achou sem graça, insista. Lá para o décimo, fica difícil não querer maratonar e não se apaixonar pelas personagens, não é de se surpreender o sucesso que faz até hoje (na época o mangá ganhou prêmio). Tenho certeza que de muitas histórias que vi na vida, essa provavelmente foi uma das que mais me tocou.







quarta-feira, julho 19, 2017

Bokura ga Ita: Sentimentos que Transcendem Idade



Gênero: Vida Escolar, Shoujo, Josei, Slice of Life, Drama.


Sinopse: Takahashi Nanami acaba de começar o secundário. Em sua classe, há um menino muito popular, que dizem ter conquistado 2/3 das meninas da escola, Motoharu Yano. Depois de um tempo, Yano e Takahashi começam a namorar, mas muito problemas começam a surgir entre eles. Yano possui um passado muito obscuro. Será que Nanami será capaz de compreende-lô?

Fonte: Wikipedia

Análise e Opinião Sem Spoilers:


No início do ano, quando eu pesquisava animes com temática mais romântica e relacional, Bokura Ga Ita sempre apareceu como uma das sugestões certeiras. A premissa do garoto desejado e popular namorando a garota mediana e enfrentando problemas, contudo, não me chamou atenção à primeira visto. Perco o número da quantidade de sinopses em que o enredo se delineia com este clichê contemporâneo juvenil da garota estranha ou razoável em uma paixão turbulenta com um garoto bacana demais para ela.

Em algumas histórias este artifício me incomoda: em Kimi ni Todoke, a protagonista Sawako é tão adorável em sua personalidade pura por trás da face amedrontadora, o restante das personagens tão carismáticos, que o mocinho apaixonado, Kazehaya, ser o “gostosão da parada” não é tão chato (embora eu ainda acredite que ele poderia ser um pouco menos “número 01” e ainda assim seria legal). 

Em Kaichou Wa Maid-Sama, em contrapartida, a perfeição exacerbada de Usui por vezes chega a cansar. Bom nos esportes, reconhecidamente bonito, gênio nos estudos, rico. Algo que Kareshii Kanojo no Jiyou (Karekano) apresenta também, no entanto subverte ao mostrar a outra face das personagens. Em "Sukitte Ii na Yo",a problemática de se namorar um cara lindo e amigo de todos é um dos focos da trama, e algumas vezes faz um trajeto intrigante em meio ao clichê. Os exemplos são infindáveis, alguns funcionam melhor, outros nem tanto.



Voltemos a Bokura Ga Ita: Nanami tem 15 anos é uma garota comum e doce, aquele arquétipo da protagonista romântica e alegre dos shoujos. Ela está iniciando o Ensino Médio e após ouvir rumores sobre seu popular colega de turma, Motoharu Yano, ter conquistado boa parte das meninas, começa a prestar mais atenção nele. Ela acaba conhecendo e convivendo com o garoto, e após algumas desventuras  e desentendimentos, os dois se tornam amigos, desenvolvem uma atração, e sem muito rodeio e picuinhas, passam a namorar. Em meio a isso, é revelado que ele namorou no ano anterior com uma garota muito bonita que faleceu, e as circunstâncias de sua morte deixaram Yano confuso e com dificuldade em confiar em alguém. A irmã da garota, aliás, é colega de classe de Nanami e aparenta ter uma ligação complicada com o menino. As coisas complicam ainda mais quando o melhor amigo de Yano, Masafumi Takeuchi, também demonstra amar Nanami.

Nana-san, a ex namorada falecida

Yuri Yamamoto, irmã de Nana-san

O anime, então, vai mostrando o aprofundamento da relação de Nanami e Yano: o primeiro encontro, a sensação de se estar apaixonado, ciúmes, sexo – sim, não se deixe levar pelo traço fofo, aqui temos uma ótica muito mais verossímil onde os personagens pensam, falam e fazem sexo naturalmente, sem exagero ou apelação - , e demais peculiaridades comuns de uma paixão adolescente. Nanami, no início, até se sente insegura por Yano ser muito popular, mas, ainda bem, depois de um tempo isso se torna algo superfluo: Nanami amadurece e se torna mais segura e popular, e a relação deles não se constitui numa desigualdade que a faça se humilhar por ele ou se torne o foco da história (como Kotoko todo o tempo tentando chegar à altura de Irie em “Itazura na Kiss”, Erika se humilhando e se esforçando para amolecer o coração de Kyouya em “Ookami Shoujo to Kuro Oji” ou a dependência da solitária Mei pelo popular Yamato em “Sukitte ii Na Yo”).





Quanto a Yano, é um mocinho muito odiável e amável: realmente é bem babaca no início: é o típico popular do colégio – a arrogância adolescente se mostra muito realista neste ponto - , e algumas de suas atitudes são muito detestáveis, dessas que te darão nos nervos, no entanto, é notório o quanto ele luta para ficar com Nanami, o quanto ele se esforça para agradá-la e o quanto corre atrás dela. Eu, que sou bem resistente a personagens masculinos de josei e shoujo, desenvolvi simpatia pelo personagem, compreendendo-o melhor e sentindo pena dele depois dos bolas-fora dados (claro que uma parte de mim ainda torceu um bocadinho para a protagonista ser “roubada” pelo amigo de Yano e seu rival no amor… mas foi coisa pouca). 




Aliás, o mais legal que encontrei no anime foi a identificação: como senti empatia com Nanami, uma personagem tão diferente de mim em personalidade, mas tão próxima em algumas atitudes da adolescência: ela se empolga bastante no início e se esforça para ser amorosa e compreensiva, mas o passado turbulento, as dúvidas, a desconfiança, a falta de imaturidade de ambos, começou a pesar, e nem sempre ela aguentou o tranco. Heroínas de fibra que sempre suportam tudo… por mais forte que Nanami seja, ela é humana e pouco sabe emocionalmente, muitas vezes agindo com ciúmes, possessão, egoísmo. É irritante? É, mas verossímil! Quem não foi assim no primeiro amor? Começou com a pureza da inexperiência e uma hora sentiu vontade de jogar tudo para o alto e desistir pós descobrir o quão difícil pode ser?




Outro ponto positivo: trilha sonora. Tem um ending diferente todo episódio e as músicas embalam todas as cenas. Algumas melhores que outros, mas ao fim, fica tudo na sua cabeça, juntamente às cenas.






CONCLUSÃO

Se você curte romance escolar, slife of life, jogue-se sem medo. Se quer uma coisa bem leve e cômica, não é tanto a proposta de Bokura ga Ita. Uma relação mais adulta, menos “bobinha”, personagens não tão cativantes e carismáticos, mas com quem nos identificamos com seus defeitos. Miscelânia se sentimentos e dramas. Recomendo!